cento e vinte e nove.




mar



"ensina-me a morrer rente ao céu. como
ficar de pés e mãos seguros, e
já em queda sentir as nuvens. ensina-me
a destoar nesta primavera: chover. e
finda-me, como a um poema. hoje
não acredito no destino, só por hoje
fico a apregoar algumas maldições
às fadas e aos bichos carpinteiros, aos
deuses e ao Deus primeiro. cansei-me
de viver. ensina-me a morrer, preciso
de me verter em sal, por
lágrimas tardias derreter inteira, até
ser pele e osso nos teus olhos. hoje
ensina-me com que dores cobrir
estas memórias.
"
mar



"Que insondável mistério é um ser humano! Quanto mais vivo e convivo - a observar homens sãos e doentes -, mais se arreiga no meu espírito a convicção de que nunca consegui conhecer verdadeiramente nenhum. O que dizemos e o que fazemos pouco ou nada revelam de nós. Por mim falo. Converso, escrevo páginas maciças de confissão, actuo, pareço transparente. E quem um dia quiser saber o que fui, terá de me adivinhar..."
miguel torga

BASIA BULAT, snakes and ladders.

cento e vinte e oito






deste mar.



"levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que exalta.
Escondo a cara. A voz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte conta o êxtase das imagens.
"
herberto helder


kimya dawson e lullaby for the taken


"Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.
"
carlos de oliveira

california stars de wilco


chega-te aqui um pouco mais.
um pouco mais até caires na noite
e veres por fim qual dor me acanha,
me entorpe os sentires. chega-te.
chega-te aqui. quero cair contigo outra vez.
de novo. aqui. daqui cair de vez.

mar

cento e vinte e sete






deste mar.



"Ao nível do mar
como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
um homem
ferido de morte
vai falar
"
antónio josé forte





"Como um vidro estalado.
A quem me ler
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo
"
josé saramago


o meu silêncio é
geralmente feito de pupilas dilatadas
e álcool nas veias. morde,
come as canelas e murcha as peles dos
braços como papoilas ao
sol quente de agosto.e
o meu silêncio podia ter o teu nome
em queda livre sobre
o meu. porque
dois substantivos mortos
reproduzem.

mar

as palavras pequenas são as mais importantes ponto

cento e vinte e seis





deste mar.



"é no meu corpo que morreste. agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as

conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação imperícia;

os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na

sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou o dia.
é no meu corpo que morreste, agora.
"
antónio franco alexandre


volcano de damien rice.


"levanto-me do breve neste dia, as palavras esperam por nascer mas é pressentido o seu lugar, deslocamo-nos mais lentos que a abelha estagnada sobre um campo de papoilas, o ar parece calmo, azulado por uma morte precoce: a noite recua para os amplos desertos da surpresa."
rui nunes


também o amor como os ossos, dói
mais quando está parado. por
isso mexo o corpo, danço
ao som de equinócios temporais e
torno-me, sempre, sepultura de espaços tão
vazios quanto estas
palavras. porque os nossos corpos
juntos são
o encontro perfeito de dois silêncios
mortos. e cada palavra tem
a cadência de um beijo, o
peso de um amor.

mar.



cento e vinte e cinco





alberto



"Se pudesse amar, acreditaria no que amasse, e seria alguma coisa, porem o amor é um obscurecimento e ele sente que nasceu com a visão clara e sem crença na luz (a razão ilumina, indiferente ( o sogro dizia-lhe: "você é um racionalista destituído de afectos, irá longe, mas sem acolhimento", "isso não é verdade": respondia-lhe: "amo a sua filha", "quer dizer, respeita as possibilidades que ela lhe oferece", "e não é isso a que normalmente se chama sentimento?", "esfria-me, você esfria-me", " o senhor deve escrever poemas a horas mortas no escritório", "escrevo a horas vivas, horas mortas são todas as suas"."
rui nunes


clandestino de deolinda.


"minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos de vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
mexem
os dedos na gaveta, calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela.resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios.
"
antónio franco alexandre


por enquanto creio que posso desesperar: sento-me à porta de casa, os pés, murchos como as flores no canteiro, morrem-me descalços ao frio da manhã. estou desassossegado, trago qualquer coisa a latir-me dentro do peito, como um cão abandonado, a dormir na esquina ao relento. estou ausente, anormal, pesa-me na dianteira do corpo uma pronúncia forte: o amor.

mar






cento e vinte e quatro.


"Na paisagem que amanhece
jaz o corpo de ninguém

maior do que a noite
e os olhos que ela tem

jaz um pouco de lado
voltado para a lua

coberto de nada
na paisagem nua

nunca teve um nome
não espera o Além

o corpo que jaz
e é de ninguém"
antónio josé forte


"acontece este amor
sem amador, coisa amada.
tem grito de mulher no quarto ao lado
(é filme), tem canivete
encima da mesa branca,
tem lavadas crianças bebendo suco,
tem a rua, o jardim,
o hálito da água.

me basta quando vi
um breve engano."
antónio franco alexandre

ensina-me a morrer rente ao céu. como
ficar de pés e mãos seguros, e
já em queda sentir as nuvens. ensina-me
a destoar nesta primavera: chover. e
finda-me, como a um poema. hoje
não acredito no destino, só por hoje
fico a apregoar algumas maldições
às fadas e aos bichos carpinteiros, aos
deuses e ao Deus primeiro. cansei-me
de viver. ensina-me a morrer, preciso
de me verter em sal, por
lágrimas tardias derreter inteira, até
ser pele e osso nos teus olhos. hoje
ensina-me com que dores cobrir
estas memórias.

mar

cento e vinte e três.



do mar.



" Quanto demorei a chegar

ao sossego desta casa.
E o espelho reflecte agora
o instante que me estranha.

Esse estranho que eu olho
só parece que vê:
simula o simulador
que o olha e nada vê."
francisco brines

"para dizer o não dito
ou aquilo que
a um só ouvido me atrevo.

Um ano depois a onda
traz-te à superfície,
calo-me para ver
o que te prende o coração.

Na linha dos teus ombros
o fuel volátil dos sonhos.
"

fernando luís sampaio





e deste mar: porque em véspera de primavera o sol já cá chegou.




céu sem nuvens!