


alberto
"
Se pudesse amar, acreditaria no que amasse, e seria alguma coisa, porem o amor é um obscurecimento e ele sente que nasceu com a visão clara e sem crença na luz (a razão ilumina, indiferente ( o sogro dizia-lhe: "você é um racionalista destituído de afectos, irá longe, mas sem acolhimento", "isso não é verdade": respondia-lhe: "amo a sua filha", "quer dizer, respeita as possibilidades que ela lhe oferece", "e não é isso a que normalmente se chama sentimento?", "esfria-me, você esfria-me", " o senhor deve escrever poemas a horas mortas no escritório", "escrevo a horas vivas, horas mortas são todas as suas"."
rui nunes
clandestino de deolinda.
"minhas pequenas dúvidas estabelecem
habitação violenta. furam pelos ossos,
espalham os dedos em volta, os caules
aquecidos de vento, roem
lentamente os pátios inertes,
instalam a dobra azul dos cotovelos,
resistem. Têm, ambígua, a elegância
elementar da água. Dobram
as espigas nos dentes,
conhecem o nervo
estendido no céu.
mexem
os dedos na gaveta, calcário
das costas, vigiam com cuidado
as vísceras dos galos, a variável
rotação dos planetas; enquanto a galáxia
gira em si mesma intensamente inútil.
minhas pequenas dúvidas multiplicam os dentes,
decoram marx, passeiam o silêncio
pela trela.resistem,
furam pelos dedos, as vísceras
intensas do vento, estabelecem
cotovelos completos.
têm
a violência constante dos ossos,
resistem, dobram lentamente
a trela das estrelas,
ferem as vísceras
inertes do silêncio, espalham
em volta a demasia oblíqua
das espigas nos pulsos. lêem
o jornal misturado à saliva, aprendem
sem ruído as máquinas da pele:
minhas pequenas dúvidas resistem
o calcário dos nervos,
estabelecem
habitação inútil,
dobram os ossos ao calor dos pátios."
antónio franco alexandre
por enquanto creio que posso desesperar: sento-me à porta de casa, os pés, murchos como as flores no canteiro, morrem-me descalços ao frio da manhã. estou desassossegado, trago qualquer coisa a latir-me dentro do peito, como um cão abandonado, a dormir na esquina ao relento. estou ausente, anormal, pesa-me na dianteira do corpo uma pronúncia forte: o amor.
mar